quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

o hiato que me consome

Eu acho que tentar explicar a essência de um personagem que é tão pesadamente baseado em mim mesmo, com suas motivações e seus porquês, é uma forma tangente de autoanálise, em cujo contexto o ator funciona como psicólogo improvisado. Ele escuta, toma notas e encarna a persona;  daí eu, atrás da câmera, posso esperar, com a performance, talvez encontrar o eixo dos meus problemas. É um começo.

Ainda sobre o meu curta, meu personagem principal se revela gay ao espectador na última cena, sem cerimônias, sem criar caso, sem firulas. Fiz questão que todas os personagens tomassem o fato como qualquer outra notícia, uma que tanto faz. Não quero que seja uma história sobre um gay que lida com seus problemas, mas sobre um rapaz que lida com seus problemas. Essa coisa de definir quem é o quê tem me cansado um bocado. Dia desses, o Luciano veio me contar que o Lee Ryan revelou - em pleno Celebrity Big Brother da tevê britânica - já ter ficado com um cara. A partir da notícia, as matérias online passaram a especular a possível bissexualidade do cantor e - ah, que preguiça eterna! Me peguei pensando se sou só eu que acho essas definições sem propósito.
Outro exemplo ocorreu ontem à noite com um grupo de amigos. Enquanto ríamos com as lembranças embaralhadas da véspera de Ano Novo, em que todos brincamos de trocar selinhos à meia-noite, uma das amigas veio questionar o Drew se ele era gay - ou pelo menos bissexual - por ter me beijado na virada do ano. Ele, elegantemente, respondeu que não é justo que o beijo de duas amigas seja normal e cool, mas que entre dois amigos rapazes, é caso de ser isso ou aquilo outro.

Por isso, no meu roteiro, esse é um detalhe entregue sutilmente no final: meu personagem não precisa contar pra ninguém se é A, B ou AB, porque a verdade é que ele tem coisa mais interessante pra dizer. E eu só posso esperar que seja notável o quão pouco essa questão importa.

4 comentários:

  1. Off-topic: ame-me, too! Assim como o Lobo (e o David, e o Lucas, e o Reginaldo e mais um moooonte de gente inteligente) não gostei de Looking. E nem assisti!!! :-)

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  2. In-topic: seu curta parece ser bem mais interessante que Looking, em termos de como mostrar "normalidade".

    Estreia quando? Vai ter no IMAX? :-)

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  3. @Edu: Po, tava começando a me achar o únito estranho no mundo, todos que eu conheço que assistiram gostaram. Bom saber que formamos um grupo da opinião divergente.
    Pois é, meu curta, nem sei quando estreia. Não vai sair no IMAX apenas por motivos de: não é 3D.
    hehe claro que aviso quando tiver pronto, vai ser um filho lindo que vou fazer questão de mostrar!
    :*

    [j]

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  4. É O PRIMEIRO.
    A gente é o primeiro. Todos nós.

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