segunda-feira, 6 de outubro de 2014

é o meu jeitinho (escroto)

Tenho tentado acompanhar toda a filmografia do David Fincher, um dos cineastas atuais mais inteligentes, no meu ver. Hoje assisti ao seu penúltimo filme, The girl with the dragon tattoo, e, como cinema é identificação, foi inevitável levantar o palpite de que é possível que muita gente me veja como uma versão mais branda da personagem central, Lisbeth, ríspida em seu toque interpessoal. Como descrevi em algumas cartas atrás, essa minha falta de tato escalou nos últimos três anos; mas, se me é possível advogar em meu favor, aproveito para citar o esperto Arthur Tadeu Curado e uma fala de um espetáculo seu que define a essência do meu eu-social: eu sou escroto, mas não sou ridículo. Não sei se ela me absolve, mas encerra meu caso.

Dia desses, levei uma bronca do André. Estávamos conversando, ali na praça do Museu da República, e já eram quase onze da noite; eu com o laptop aberto, pedindo a opinião dele sobre uma cena do meu filme. Chega por trás da gente um sujeito estranho com uma sacola na mão, para na minha frente, puxando assunto, e estende a mão pra eu apertar, mas eu nem. O cara fica ofendido e tenta a vez com o André, que retribui com um aperto de mão. Aí ele fica magoadíssimo comigo, improvisa um rap pro meu amigo, sem perder qualquer chance de exclamar que ninguém jamais o ofendeu como eu. Enfia a mão na sacola e puxa um CD com suas composições, gritando "eu não sou bandido, não vim roubar seu computador". Enfim, o sermão que ouvi do André ao final de tudo foi que eu arrisquei perder a vida ao discutir com um estranho doido na rua. Porque disse, em bom tom de voz, "não vou pegar na sua mão, não te conheço". Porque completei com "não te humilhei, só quero conversar com meu amigo e você está atrapalhando". Enfim, eu vejo razão no discurso de um amigo preocupado: "sua inadequação está ficando sem controle". É verdade. Mas não nego que acho razoável da minha parte o cara, com a mão a centímetros do meu rosto, me pedir que o cumprimente, e eu apenas:

-You need to stop talking.

3 comentários:

  1. david fincher é foda, apesar desse não ser o meu favorito.

    quanto ao seu jeitinho... foi imaginando o cara, que já deve estar humilhado o suficiente por estar vendendo a arte dele assim para desconhecidos pela noite numa praça. negar um aperto pode ser devastador para ele, naquele momento. mas vc tinha todo o direito de não aceitar tb. seu argumento é válido.

    só sei que, agora se eu te encontro numa praça, com laptop aberto ou não, aceno a distância pra ver se posso me aproximar.

    ;)

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  2. Eu te entendo, e entendo a posição do seu amigo. Você apenas quer que respeitem a sua linha.

    O seu espaço é o seu espaço, e ninguém tem o direito de atravessar a linha que separa o seu espaço do resto do mundo. NIN-GUÉM. a não ser que você permita.

    A meu ver é meramente isso. Só que o mundo tá muito doido, e as pessoas não sabem mais muito bem onde acaba o espaço delas e começa o nosso. E isso mexe com a cabeça delas. Mas a gente não delimita, o mundo começa a entrar de uma forma que endoida a gente.

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  3. @Antonio: não é bem assim, se me vir pode vir falar, aliás pode correr pro abraço.

    @Lobo: pois é, lobs. essa galera pira.

    [j]

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