terça-feira, 26 de outubro de 2010

No mínimo, melhora

Benin, te digo que estranhei o retorno daquele texto dos meus oito anos de outing. Eu só escrevi aquilo porque, pra mim, era importante comemorar a data. Mas achei que isso só fosse importante no meu contexto; não imaginei que fosse gerar tantas respostas. Alguns dos leitores cruzados me deixaram verdadeiros depoimentos, contando suas próprias histórias e seus cases de sucesso. Fiquei muito movido com essa identificação toda. Confesso que reli o texto umas cinco vezes e não compreendi onde está a mágica, mas sei que existe, prova disso foi o efeito gerado.

Em seguida, achei que poderia continuar compartilhando desses contos, já que aos poucos me lembro de detalhes do processo que ficaram de fora do limite de caracteres do texto. Surge então o marcador It gets gayer. Mas vamo começando a história lá atrás, way back, way back when...

Como disse, achava que minha sexualidade era uma coisa que eu podia simplesmente guardar pra mim, evitando, assim, trazer problemas pra as partes envolvidas. Eu sabia que era diferente, afinal, aos quatro anos eu já brincava de beijo na boca com um dos coleguinhas do jardim de infância. Chegamos inclusive a nos casar no reservado do banheiro da escolinha. Leonardo, meu marido, tinha a pela bem branca, um topete volumoso e uma boca grande e vermelha. Eu me lembro bem, tinha gosto de chocolate.

Alguns anos se passaram, e meu matrimônio, já superado, não me impediu de gostar de uma amiga doidinha da quarta série. Karoline. O namoro foi uma dificuldade só, o pai dela não permitia [sente o novelê] e, eventualmente, tivemos que terminar.
Em 2005 encontrei ela numa versão bem masculina na Parada Gay. Era lésbica.

Mas volta a fita, agora pra quinta série, quando eu, tentando esquecer a Karol, comecei a namorar a Aline. Essa sim, era loca. De forma que, se fôssemos adultos, provavelmente eu teria que arrumar um mandado de segurança. Terminei [tive que apelar pra fórmula de sucesso "vai tomar no cu filha da puta" porque senão ela não largava] e mais alguns anos depois, vi a garota passando de carro, de cabelo raspado, numa vibe bem macha. Certeza que era lésbica.

A última menina de quem eu gostei foi uma amiga próxima, Carol, numa época em que eu estava perdidamente apaixonado por um número aproximado de dez pessoas. Ao mesmo tempo.
Minha adolescência, ladies and gentlemen. Anos mais tarde, ela, que nunca me quis mais do que como amigo, teve uma filhinha linda. Essa era hétero mesmo. Eu é que não era.


Continua...

8 comentários:

  1. acho q a magia está no fato de todo mundo ter passado por algo parecido com o q vc escreveu.

    quer dizer, pelo menos a maioria q deve ler seu blog.

    anyway, a gte tenta, tenta, tenta... só se arrebenta. td mundo tem seus casos p contar. e seus maridos do jardim de infancia.

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  2. Joe,
    Não vejo magia no que aconteceu.
    Você se abriu (mais uma vez), contou de sua intimidade, de sua história de vida e as pessoas se identificaram, mesmo aquelas como eu que, aos 42 anos, nunca passaram por isso.
    Além do mais, seu texto, sempre bem escrito, é um "plus a mais".
    A bela foto do sorriso ajudou também, rsrsrs...

    Daniel de Brasília

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  3. Não há segredos, você apenas se abriu e o fez de forma sincera e honesta. Achei lindo! Falei para um amigo vir te ler. E não vejo a hora de conhecer o menino que se transformou em homem.

    bjão

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  4. Na verdade é identificação de causa, a mágica está na conectividade dos fatos que muitos de nós com certeza já passamos. Alguns de forma trágica ou mais tranqüila com base nos depoimentos. Mas a coisa sempre rola da mesma forma, cedo ou tarde e até nunca em alguns casos, mas o que vale é o que vc quer.
    Essa coisa de lembrar o passado é legal. Alguns fatos realmente são engraçados ainda mais quando estamos nessa fase “meio bossa nova e rock’n roll” da vida. Cheios de medos, mudanças, sentimentos, anseios e vontades (sexuais tb..rs) e DÚVIDAS. A conexão das pessoas com o texto prova que as gerações mudam, o tempo passa, mas tudo acontece ou acontecerá sempre com alguém no mesmo contexto ou não, vai depender da época e da história de vida. Muitas histórias hoje acontecem de forma muito precoce, no caso do outing, na minha época [cof, cof] as pessoas se assumiram por volta dos 20 – 23. Hoje em dia aos 13 as bilus já estão de maquiagem, salto, travestismos em geral. Sei lá, hj as coisas estão mais na cara, ao alcance de todos. É isso, globalizou a coisa de gay é legal, mas o medo está lá, sempre!
    O mais legal é encontrar as pessoas da época do colégio e ver que aquele que pegava as meninas em geral e batia em todo mundo virou gay, aquele que vc desconfiava se assumiu. Acho muito engraçado encontrar essas pessoas por aí em festas, parada gay e conversar com elas: “Fulano, finalmente, hein!!!” e elas: “Pois é”. Enfim o mundo dá voltas, muitas voltas. Não poderia nunca julgá-los, pois não conhecia a história deles, mas hj vivemos do mesmo lado e estamos bem, e isso é bom. Aliás o melhor!

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  5. Concordo com o Wans, a sinceridade do que vc escreveu é que moveu a coisa...

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  6. Compartilhar histórias aumenta nosso sentimento de "normalidade". Se aqueles garotos gays americanos que se martirizam até o ponto de se matarem pudessem ouvir relatos assim tão francos saberiam que são normais e se sentiriam reconfortados para esperar as coisas melhorarem.
    Muque de Peão

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  7. Continue mesmo, com seus relatos transbordando sinceridade.

    Essa que é a verdadeira mágica.

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  8. Todos vocês são ótimos, brigado por fazerem parte da rodinha!

    [j]

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