segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Bridges to Bretas

Nem é tão certo eu dizer que jamais vou entender, porque meu telhado aqui é de vidro. Eu já fiz pior, e esta é uma confissão em público.

Após a partida da minha prima para Roraima, ainda nos anos de faculdade, conheci e me aproximei da Letícia e, rapidamente, viramos grandes amigos. A gente tinha muitos gostos em comum e se falava todos os dias, o tempo todo. A Letícia é uma das melhores pessoas que eu já conheci, de bom coração e sempre pronta a ajudar sem pedir nada em troca. Ela também tinha suas dificuldades de socialização, e a gente encontrava boa companhia um no outro. Por vezes, ela se abriu em dizer que tinha sorte de ter em mim um amigo, e eu sorria, pensando o mesmo em retorno. Era fácil perceber que dos poucos amigos que ela tinha em Brasília, todos lhe guardavam um carinho muito especial.

Em 2010, comecei planos de ir para a Austrália e, empolgado, convidei que fosse comigo. Ela também não tinha muito que a prendesse àqui, e compartilhava do mesmo desejo veemente de desbravar o mundo. Dali adiante, a Austrália, que jamais fora sonho meu nem dela, passou a ser o nosso sonho. Sem mim, ela não teria conseguido ir; e, sem ela, eu também não. Eu ajudei com grana, ela, com o visto, e no geral um foi empurrando o outro. E, em 2011, desembarcamos na costa dourada.

Mas, àquela época, eu já passava por problemas de intimidade e espaço pessoal, somados à difícil sociabilidade, e as condições da viagem acabaram por trazer à tona um monstro em mim. Dividindo meus dias com a Letícia, eu enlouqueci e me vi preso numa amizade que, por algum motivo, eu não queria mais. Não sabia entender, tampouco lidar. Então, eu me afastei; dividindo rotina e quarto com ela, eu me afastei. Virei irreconhecível, um estranho. Ela sofria, tentando compreender o que houvera feito de errado, e eu me esquivava mais, fugindo do problema. Como poderia dizer pra minha melhora amiga que já não funcionávamos mais? O que era para ser uma experiência de sonhos virou um pesadelo para ambos. Só queríamos acordar daquilo tudo.

Desmoronamos a cada dia, e enfim ela me confrontou. Eu havia sido covarde, até este ponto. Aqui eu tive que assumir a responsabilidade, ser honesto, afinal. E doeu ver quanta mágoa eu havia causado. Mas o alívio estava em, por fim, podermos seguir em frente. O ponto final havia sido estabelecido, e com sorte, estancaria a ferida com o tempo. Logo me mudei para Sydney, e tomamos nossos rumos.

Precisou que ele, um ano depois, me infligisse dor semelhante para que eu enxergasse a lição que há aqui. Que uma relação, de qualquer natureza, involve o um e o outro, e o um não pode desconsiderar o outro em favor do conforto próprio, do medo de expressar a negativa iminente. Que uma verdade pungente dói menos que o desgosto de uma mentira ou omissão. Tive que sofrer a dor dos dois lados para aprender.

Eu tenho experiência em queimar pontes; em por fim a relações, tacar fogo em qualquer vínculo. Foi o que eu fiz com o editor do meu filme depois daquele vacilo, e, de certo, foi o que fiz com a Letícia - foi eu quem ateou o fogo que ruiu a nossa ponte. A diferença entre o editor e eu é que o Martin, quando confrontado, fez-se de inocente com desculpas, fingiu não haver problema. O que eu fiz à Letícia foi terrível, mas eu soube me redimir e trazer conclusão. É como disse Andie no episódio final de Dawson's Creek, "não se trata de acertar sempre, mas de reconhecer o erro e fazer algo a respeito". Bem, este erro deixou marcas, mas me ensinou que, às vezes, as coisas na vida simplesmente acabam ou mudam, por menos que a gente entenda.

E hoje, olhando para trás, eu sei que não tenho direito de querer nada da parte da Letícia. Sei que, com pesar, ela atravessou tudo isso e hoje está bem melhor. Sei que quando fomos para Oz, ela se comprometeu a aprimorar a pessoa que era, e meu coração enche de alegria em saber que ela conseguiu. Porém, da minha parte, queria muito que esta ponte não houvesse sido queimada por inteiro; que ainda houvesse conserto.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

gente, é foda. gente é foda.

Aí que eu fui abandonado! Sim, amigo, mais uma vez, certamente, ora e por que não? Já te disse, é a minha sina. Desta vez, foi o editor do meu filme. Depois de mais de seis meses trabalhando na montagem do curta, o garoto resolveu, assim, tomou uma decisão executiva, que não estava mais a fim de investir o tempo e o saco dele no projeto e me deixou falando sozinho. Pelo menos eu acho que foi assim, porque o fato é que ele não me responde mais os e-mails, então tomei a liberdade de supor o óbvio à minha maneira, porque que tédio seria a vida sem uma boa dramatização dos fatos. Um mês mandando mensagens no Facebook, que, aliás, acusa quando elas são lidas e aponta o dedo na cara de pau do moleque, mas ele não me responde mais por nada. Ele atualiza status, daí troca a foto do perfil e segue ignorando meu contato desesperado na sua inbox. Apelei pro meu produtor, que então também tentou obter algum retorno dele, sem sucesso. Eu digo:

- Tony, jamais vou entender como alguém pode fazer isso.
Ao que ele concorda:
- Em minhas experiências de trabalho, jamais se deixava de responder mensagem.

E é isso, assim eu encerro. Jamais vou entender.

sábado, 11 de outubro de 2014

Mr. Flamhaff

Como já dei a dica, o meu curta é uma extensão do [ from joe ], e o personagem principal é o Benin, bem como aqui no blog. Você que lê este post e me acompanha pode se gabar pros amigos de que 'leu o livro blog antes de ver o filme', se você é desses. E eles vão responder "Quê?".

Se você alguma vez se queixou de nunca ver esste tal de Benin por aqui, sinto muito. O que eu posso fazer por você, em nome desses anos de companhia, é adiantar o rosto do cara que encarnou o Benin na tela. O escolhido para representar o personagem que há anos existe nesta blogosfera. Direto dos bastidores, apresento-lhe o Benin Flamhaff:


Natural de Perth, Western Australia, ele se chama Griffin Avis-Foster. Para começar sua carreira, o Griffin se mudou para Sydney em busca de oportunidades: trabalha como modelo e faz curso de Atuação. Na época de escalar o ator para o papel principal, tinha mente alguém que fosse bonito, mas com cara de gente normal. Alguém que pudesse parecer uma pessoa com a cabeça bagunçada e agradar aos olhos ao mesmo tempo. No set de OVERRATED, ele se esforçou para entender a profundidade do personagem, a fim de retratar um Benin crível, sempre arrumando tempo para ser simpático, falar bobagens e trocar de roupa na frente da equipe. Tomei a liberdade de roubar algumas fotos do instagram do bonito, a título de ilustração. Depois me diz se gosta. XX





sexta-feira, 10 de outubro de 2014

"let's do it"


Let's fall in love, um curta que eu vi hoje e adorei pelo tema, e ainda pela linguagem, universal. Não há diálogo, só música. O resto é o arco.

Engraçado me imaginar numa situação parecida quando eu tinha essa idade. Claro, naquela época eu estava limitado a sonhar com qualquer coisa assim, mas eram sonhos que abarrotavam minha cabeça. No entanto, ainda me colocando na pele do garoto, é fácil entender o receio dele de deixar à mostra o afeto pelo outro... nessa idade, a gente sofre por não entender quando passa a enfrentar um mundo do desconhecido, justamente quando acreditava já saber da vida.

O mais legal é a intuição que leva a gente a correr riscos e desbravar esse desconhecido. Assim, a gente vê que algumas coisas não assustam tanto quanto à primeira vista. É bom saber preservar um pouco dessa coragem quase prepotente da adolescência para os anos que seguem. Porque quando a gente cresce, vai percebendo que a vida é só essa merdinha aqui, e certas coisas a gente tem que apenas ir lá e fazer como quiser, doa a quem doer - se é mesmo que dói.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

tchau, clic

Eu devia grafitar este conselho na parede do meu quarto, ou tatuar num lugar visível. Pra ver se eu lembro. Pra ver se eu não esqueço.

Você precisa parar de forçar relacionamentos. Se uma pessoa não quer te quer, apenas mande um "De boa, até nunca, tchau".

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

L.O.S.T. - Broods


Bom é arte que faz a gente se conectar consigo e investir inúmerasinapses em reflexão, porque rola uma identificação com o que se consome. Por acaso, um dia desses, descobri o BROODS, uma dupla da Nova Zelândia cuja obra tem reforçado a razão do meu amor por música. O apreço ao som deles foi imediato; é que o duo compõe melodias que me fazem querer deitar no chão como se não houvesse mundo que valesse qualquer desassossego, e letras que entrepassam cada canção com a maestria de uma obra prima. Não paro de escutar.

Never gonna change me pegou como boa surpresa. A faixa trata do término de uma relação que insiste em manter laços, daqueles com pontas soltas desfiadas - embora o tema não seja novo, foi a poesia da letra que me arrematou. E a narrativa do video é encantadora: um casal tenta se recompor do rompimento e seguir adiante, mas ambos ruem, literalmente se afogando numa relação que acaba por trazer um de volta para o outro e revela a conclusão conformista do título, de que nada nunca vai mudar. Com 1 minuto de clip, eu já tava chorando feio.



Para ouvir na íntegra o disco recém-lançado do BROODS, Evergreen:



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Na realidade,

Reality TV é o tipo de produção roteirizada que menos me chama a atenção, mas ainda assim há alguns programas que eu assisto com uma leve obsessão: Project Runway, Face Off e RuPaul's Drag Race - todos eles, shows de disputa de talentos. Só assim pra acompanhar reality tv.

Durante as entrevistas com os competidores, que entremeiam as etapas da competição e tornam o episódio mais intrigante, tem um tipo de comentário padrão que eu sigo tentando assimilar, mas sem sucesso: é naqueles momentos de desespero, diante de uma possível eliminação, que eles expressam o desejo de trazer orgulho às suas famílias e dizem coisas como "estou aqui pela minha mulher e meu filho que vem aí" ou "eu só quero deixar minha mãe orgulhosa de mim"... Sei lá, na boa.

Vários anos atrás, muito antes que eu tivesse a mais vaga ideia do que eu queria da minha vida, eu sabia de uma coisa, que já havia confessado a mim mesmo: eu queria sentir orgulho de mim. Era o meu sonho, antes de saber o que uma carreira significaria no contexto real. Daí eu vejo essa galera querendo trazer orgulho pra família, até me identifico com a intenção, mas quando me imagino no lugar de um deles, o meu medo da eliminação teria fundamento em temer decepcionar a mim mesmo? E não sei se é egoísmo ou um traço daquele meu distanciamento que venho citando? Não sei se é o caso da pessoa já ter conquistado o orgulho próprio pela pura validez do "venci só de participar", e o instinto para permanecer na corrida passa a ser a vontade de contagiar os entes com a vitória. Sei lá, de verdade. Fosse eu, ia querer primeiro esse orgulho próprio aí. E, então, compartilhar a alegria, sim. É gostoso ter quem se orgulhe da gente. E não é que eu seja uma decepção - é que eu busco esse estado, esse sentimento de saber que sou muito bom em algo sem precisar da aprovação alheia, e ter orgulho daquilo que faço. Ta aí um sonho que não custa perseguir.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

é o meu jeitinho (escroto)

Tenho tentado acompanhar toda a filmografia do David Fincher, um dos cineastas atuais mais inteligentes, no meu ver. Hoje assisti ao seu penúltimo filme, The girl with the dragon tattoo, e, como cinema é identificação, foi inevitável levantar o palpite de que é possível que muita gente me veja como uma versão mais branda da personagem central, Lisbeth, ríspida em seu toque interpessoal. Como descrevi em algumas cartas atrás, essa minha falta de tato escalou nos últimos três anos; mas, se me é possível advogar em meu favor, aproveito para citar o esperto Arthur Tadeu Curado e uma fala de um espetáculo seu que define a essência do meu eu-social: eu sou escroto, mas não sou ridículo. Não sei se ela me absolve, mas encerra meu caso.

Dia desses, levei uma bronca do André. Estávamos conversando, ali na praça do Museu da República, e já eram quase onze da noite; eu com o laptop aberto, pedindo a opinião dele sobre uma cena do meu filme. Chega por trás da gente um sujeito estranho com uma sacola na mão, para na minha frente, puxando assunto, e estende a mão pra eu apertar, mas eu nem. O cara fica ofendido e tenta a vez com o André, que retribui com um aperto de mão. Aí ele fica magoadíssimo comigo, improvisa um rap pro meu amigo, sem perder qualquer chance de exclamar que ninguém jamais o ofendeu como eu. Enfia a mão na sacola e puxa um CD com suas composições, gritando "eu não sou bandido, não vim roubar seu computador". Enfim, o sermão que ouvi do André ao final de tudo foi que eu arrisquei perder a vida ao discutir com um estranho doido na rua. Porque disse, em bom tom de voz, "não vou pegar na sua mão, não te conheço". Porque completei com "não te humilhei, só quero conversar com meu amigo e você está atrapalhando". Enfim, eu vejo razão no discurso de um amigo preocupado: "sua inadequação está ficando sem controle". É verdade. Mas não nego que acho razoável da minha parte o cara, com a mão a centímetros do meu rosto, me pedir que o cumprimente, e eu apenas:

-You need to stop talking.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

"crippled dog"

Com tudo que me ocorreu nesses passados três anos morando longe e sozinho, aos poucos tomei ciência de um dos traços básicos que configuram meu problema de autoestima reduzida: o quadro crônico que eu livremente chamo de Síndrome de Forção.

Em suma, a coisa toda é um processo autodestrutivo, uma arma de sabotagem, sob influência da qual eu me enxergo como inadequado em minhas trocas sociais; basicamente, na iniciativa de fazer contato e compartilhar ideias e gostos, eu me convenço de que minha abordagem é natural, apenas para depois torpedear a mim mesmo com bombas de efeito psicológico que exclamam o quanto sou desinteressante. Em seguida, eu repreendo qualquer esforço em interagir adiante, por motivos de vergonha, insegurança e frustração. Esse efeito dura somente o bastante para o ciclo recomeçar.

Era assim que eu me sentia quando tentava conversar com os meus amigos no Brasil; a dinâmica parecia estar quebrada, e eu temia que minha falta de polpa houvesse, enfim, ficado clara à vista.

Com os escassos amigos locais, o receio era o mesmo, porém em maior escala. Diferente dos amigos já conquistados, eu agora me encontrava à deriva num cenário de interações com gentes, eu um praticamente adulto que não aprendeu a se misturar com o próximo.

Entretanto, com ele esse problema se dissipava. Era parte da mágica que fazia eu me sentir tão bem, o alívio nos ombros. Até a hora em que tudo desandou e a Síndrome de Forção me acometeu com mais substância. Cada vez que ele cuspia a clássica "não é você, sou eu", eu definhava mais, embora em parte concordasse - não era eu. Por quê?

Em minha defesa, eu nem me acho assim tão desinteressante e sem polpa - ao menos, não quando em comparação. Esse quadro, essa patologia só persiste porque a raiz disso tudo crava bem mais abaixo.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"a heartbreak is like a death / love is a growing up"


Faz dois anos hoje que a gente se conheceu. Dois anos atrás, me perguntava o que eram, afinal, os acasos e as coincidências, e quem tinha controle sobre essas coisas. Estava feliz e cheio, e sequer sabia o que me encontraria à frente.

Há dois anos, eu penso nele. Isso é o que me esperava, aqui na frente.

Exata uma semana atrás, ele me surpreendeu com um e-mail seguido de Skype; queria por o papo em dia e dividir uma boa notícia. Era uma novidade excelente, que, ele sabia, iria me deixar feliz. E eu fiquei. Muito feliz por ele, mal conseguia segurar uma alegria que parecia se expandir. Daí ele desligou e eu ainda estava feliz, porém muito triste, e tentando entender a origem da dor obesa que me ocupava.

Dias atrás, vendo um video da India Arie no Java Jazz Festival, ouvi a cantora explicar a inspiração para uma das minhas músicas preferidas de sua autoria. Ela diz que, quando escreveu a letra de Good morning, havia entendido que um coração partido é como uma morte, e que um relacionamento nada mais é do que uma tomada de risco. Um risco. Mas que o amor é um crescimento, e, neste fundamento, a música delineia os estágios da dor de um coração quebrado - e do crescer que o segue.

O dia por que eu tanto esperava era ainda o que eu mais temia chegar. Mal pudia acreditar que ele ligara, e não podia acreditar que ele ligara. Porque me agarro às lembranças, quando o que eu quero é largar. Posso fechar os olhos agora e sentir seus pelos do braço trançando por entre os meus dedos, braço que eu roçava incessante, sem querer largar.

Eu queria ter uma conclusão, um lugar para chegar com isso, mas não.



© 2008-2014 wando joe [ from joe ]