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quarta-feira, 15 de março de 2023

blind

  

(Risos) Lembra como era enxergar as coisas mais claras, os olhos semicerrados ao brilho do lado positivo que em tudo há? Como era ver a energia do universo fluir entre nós, como ondas.

Olha, se ano passado as trapaças psicológicas que rodeiam o meu quinze de março não me pegaram, neste ano não teve jeito. Equilíbrio é tudo. 

Eu tô num mar ermo, cercado de um corpo pesado de águas de março, torcendo por uma boia e um bote. Zonzo das ideias, incapaz de enxergar o horizonte ou direção ou sentido. Não sei ainda o porquê, tô processando, e a terapia é só na sexta.

A SZA tem sido, nos últimos anos, a artista que mais fala por mim, e o recém-lançado S.O.S. me caiu como salva-vidas. Escuto num loop maior que a volta da terra. Dentre as tantas faixas, relacionáveis demais, tem essa aqui, Blind. Diz algo assim: 

[ Refrão ]

É tão vergonhoso,

tudo aquilo que eu preciso

está dentro de mim,

e eu não consigo ver,


é tão embaraçoso,

todo o amor que eu procuro

vive dentro de mim,

eu não enxergo, estou cego.

Essa música me abraçou e me engoliu como um oceano impiedoso.



Happy birthday, Joey! Feliz trigésimo sétimo.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

cinematic parallels (e ano passado eu morri mas esse ano socorro)



Mentalmente, eu estou aqui.

 

 

Aliás, lembrando aqui de quando Pennzinho e eu tivemos aquele relacionamento tão efêmero. Só de lembrar, fico todo embaçado.


Penn Badgley para a Interview Magazine. 

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

14 (catorpe)

 

Eu pouco sabia ou podia conjecturar os rumos que traçaria, por mais que os tentasse planejar, lá em oito do oito de dois mil e oito, quando saltei de outro endereço virtual para este aqui, propondo uma nova forma de participar da moda da época –o blog–, que me servisse um propósito pessoal, e não só o de uma das primeiras redes sociais (que aliás, difícil era prever que essas tomariam tamanha proporção e oferta diversa). No fundo, havia um jovem muito confuso que só queria se entender e não parou de tentar. Catorze anos se vão, e ainda tento.

Eu tenho feito tanto esforço pra estreitar esse laço com o eu mesmo, mais do que nunca eu tenho tentado, mas com o voar do tempo e a quilometragem cansada e a distância faltante, eu vejo que temo o que vou aos poucos descobrindo. Não tenho certeza se vale a pena esse mergulho afundo adentro, não sei se ainda me resta apreço por explorar essa caverna: no escuro, na profundeza, quanto bicho se esconde!

Eu tô por aqui, eu vou estar sempre por aqui, e você comigo, eu e você. E no cruzar dos anos, escrevi tantas palavras cheias, belas linhas:

 

 

Mas agora, não há o que me importa dizer; nada importa.
Agora, eu não quero falar.

Feliz Aniversário, Dear Benin.

domingo, 3 de abril de 2022

Não estou disposto.

 

"Saudade."




A gente não deve nada um ao outro, senão respeito como pessoa, respeito pelo que já trocou. Pois acho justo que entenda como me sinto. No diálogo que só se manifesta sob o teu domínio, minha voz é muda, e meu tom, obediente. Isso me assentou estranho nas entranhas.

Eu tento, e falho, montar tua defesa, mas não há caso, nem causa; tua falta é a falta. E não o teu autismo, que eu salvei no teu dossiê como acordo, redução de pena. Ainda que fosse, teu dever seria tentar mais.

Eu mereço cuidado, afeto, proteção, consideração; que me encerrem os finais com os devidos nós e não larguem as pontas soltas e esfiapadas; que me contem e digam e me dêem vez de fala e ouvidos; que acolham minha oferta e, de bom grado, meu agrado generoso; que sorriam para mim e comigo e, com sua risada, suscitem a minha.

Mas não é o teu caso, e sim tua falta. Falta o respeito, esse que te estendi e não tive em retorno. Eu gosto de quando estamos juntos, e minha falta é a que faz o cheiro da tua pele e o teu tato na minha: sinto falta, além da tua Saudade, assim, solta numa frase de uma só palavra.

Venho há meses com essa náusea, e hoje esperei, outra vez em vão, pela tua retratação, a tua voz e a risada, o teu cheiro e o abraço. Bom para passar enjoo é regurgitar o que faz mal por dentro. Eu sinto tua falta, mas sinto ainda mais a dor da tua falha. Então, melhor remediar e cortar tua dose por aqui, que não tenho interesse que me tratem assim.


 

 

 

 Fotos: Aaron Taylor-Johnson para a revista Hero

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

o–dawn

I open my eyes and

they see life set down,

immuring at me

like a dying sun.

 


foto: Fátima Araujo

sábado, 7 de agosto de 2021

what if I can't find home?

 

worst case scenario, maybe this isn't it for me. and then what? once I've finally up-and-left, I can no longer take my house as a point of return. and if here can't or won't become home, I have nowhere else to go back to. which essentially makes me a man without a place to call home.

where have I misplaced my heart?

 

joey, can you cleanse your mind?

 
NOVA POSTAGEM
 
Acordei mais cedo do que Alexa estava instruída a me despertar, e já duas dúzias de pensamentos superestimulavam a cabeça, ainda pesada no travesseiro. Levantei, ao banheiro, e de cara pro espelho, foi o que ouvi de você, lá da imagem que rebatia: Você pode resetar as expectativas? Recalibrar as ideias, desligar o desassossego?
 
O mundo lá fora não tem ciência ou dimensão dos anseios que apertam o seu coração, Joezinho; tampouco tem o papel de acomodar os seus sentimentos. Se não vier de dentro, não virá esse ajuste.

Você é capaz de desligar?, segue o espelho. Ainda que se sinta inerte, você é capaz. Venha de dentro, Joe. Fique peixe.


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terça-feira, 27 de julho de 2021

“Don’t take it personal”

Nos últimos dias, fui brevemente baqueado pelo anseio visceral de pertencer, e também pelo de agradar e o de ser desejado – daqueles anseios que deixam mole e vulnerável (antes isso que COVID, eu suponho) – repetindo erros banais, e senti como se a idade e a experiência já nem mais permitissem os desse tipo e protestassem por erros novos, mais adultos.

Sob olhar amplo, tenho sido visitado por inseguranças, um medo de não estar crescendo o bastante, ou mesmo direito. Ao aproximar o olhar às minúcias, percebo que, veja só, até que tudo vai bem, ajustado, parece que tem jeito, sim. Um jogo de perspectivas meio às avessas.

Please, don’t take it personal,
don’t take it personal, darling,
like I know you will


Mas, ainda, uma leve angústia sobre as coisas, quiçá uma desistência de ser, como numa fase de videogame, da qual você tenta passar mas, por fim, larga o controle de lado, assim jogando as mãos para cima, sabe? “Samerda, deixa pra lá”. Apenas para, minutos depois, console em mãos, o olhar voraz ao desafio, a postura em riste, lançar: 
 
– Oxe, bora. Passar dessa fase é agora!
 


SZA - Prom (extraído daqui)

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Sobre os meus homens (ou: Resposta para "Onde foi que eu errei?")

Eu já aprendi – repetidas vezes – que o homo sapiens não maneja bem as negativas; que, cessado o interesse por interagir com o outro, lhe faltam os vocábulos de desligamento. É, de fato, uma troca dificultosa, verbalizar à outra parte algo nas linhas de "não quero mais", "meu interesse por você se desfez", ou "só uma vez já me bastou, mas obrigado e boa sorte!".

A verdade é que, dado o fato, pouco importa se os homens da minha vida dizem a verdade ou se escondem por trás de mentiras e/ou silêncio: eu ficarei chateado de ambas formas, é um jogo que não se ganha. Então, remova a sua atenção da falta alheia, e seja você o foco. Se seu desejo já não é ecoado, arrume suas coisas e mova-se. Lembra?

Eu decidi por não mais colecionar rancores pelos meus homens. O único saldo que se leva dessas trocas mal resolvidas é o aprendizado, e a minha própria capacidade de absorvê-lo, de cada caso, de cada homem. Se eu não tomá-los, um a um, como a oportunidade que são, no somar das contas é aí que está o meu erro.


SZA - 20 Something
 
Pra todo efeito, sempre me fascinou aprender, mesmo.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Mas o tempo não espera

Mais do que nunca, venho fazendo uso rotineiro de um poderoso coquetel cuja receita leva terapia, meditação, conselhos de amigos, sabedoria dos anos e conteúdo de autoajuda. É uma mistura potente o bastante para, no meio de uma pandemia trágica e prolongada, me perguntarem "E aí, como você tá bb?" e da minha boca sair um sincero "Tô bem, menina?". No entanto, nesses últimos dias senti um declive na minha energia; mesmo como essa vitamina toda, os ânimos estão abalados – e não consegui ainda pôr o dedo no motivo exato (se é que tem um só), mas sigo observando sem julgar, e rumando adiante, eu e minha nuvem carregada.

Eu ando tão disperso em grandes buscas pessoais, ocupado em fugir da realidade cruel que nos devasta, que deixei que três meses se passassem sem qualquer mensagem ou resposta de um amigo querido, com quem apenas recentemente reavi contato. Ele, ali por fevereiro, iniciava um novo emprego depois de um robusto hiato, e passava a sofrer alguns sintomas de complicações respiratórias, possivelmente efeitos remanescentes da COVID que pegara meses antes, além disso é enrolado por natureza para responder, e toda essa junção me fez achar que "por isso, ele não tá me respondendo". E só neste começo de maio me toquei que já se foram três meses – e ele não é disso.

Eu não quero dizer, mas eu preciso dizer: eu acho que perdi um amigo (aqui as letras embaçam entre a tela do computador e as minhas córneas). O primeiro de maio sempre me lembra da incrível amiga Angel, que lá em 2017 se foi, e, hoje, cá me encontro, nada pronto pra perder outro amigo querido, generoso, cheio de amor e beleza pra compartilhar (não que tal prontidão exista). Eu não tenho outro contato dele ou amigo em comum, então se ele não me responde mensagem ou não me atende ligação, não tenho muito como confirmar seu status. O que me resta é correr até a portaria do seu apartamento e investigar. Tocar o interfone agarrado à esperança de que do outro lado me rebata um "Pronto?".

Mas é inevitável o sentimento de que falhei profundamente em esperar tanto tempo para checar mais afundo. Na época, tentávamos combinar um encontrinho, trocar conversa e afeto, tomar cházinho e dar risada. Não aceito que fui arrastando pra depois, tal como fiz com a Angel, contando com o amanhã sem nem saber do hoje; e agora pode ser tarde demais. É preciso aceitar os comandos da vida, mas também é preciso aprender, e não largar o que/quem importa guardado para mais tarde.

domingo, 18 de abril de 2021

You may start letting go.

Your dreams, dear boy, do not live across the pond. They don't belong elsewhere, over the Pacific, and so don't you. They belong in the inner cities of your mind estate – not your state of mind. Wherever you find yourself, there is both their residence and direction.

Dreams, you see, they transit, fizzle out, reassemble anew. They're not a solid plaque to weigh heavy on you. Dreaming is for the fickle.

Dear child, you don't belong there – I know, nor here either. Yet, here is where you are. Perchance belonging has been a dream all along, one meant to fade out into the mist of a disturbed slumber. Perhaps three plus four equals awaken! Here is now.


Sam Smith - Young

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Meh

Eu conheço muitos gays que bradam de peito cheio: Se na próxima vida eu pudesse escolher, viria gay de novo.

E eu: não, sabe?

Eu não viria gay de novo, não mesmo. Não tem nada mais desgraçante na vida de um viado que gostar de homem.

Eu adoro minha sensibilidade aflorada, meu desprendimento de padrões patriarcais, minha liberdade para explorar diferentes vias. Mas gostar de homem é um pesadelo.

Eu não trocaria minhas bichices por nada: dar close com as amigues, dançar ao som das divas pop, arrasar no karaokê com trilhas de musicais. Mas gostar de homem? Isso é castigo.

Eu até viria gay de novo na próxima vida, sim. Mas com uma condição: que fosse pra gostar de mulher.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Tinder é terrível; eis o porquê:


 Flertar é jogar; é usar habilidades pessoais bem treinadas para alcançar e dominar o outro, fazer ceder.

A premissa do Tinder, de início, parece funcionar com êxito: a chance ao flerte é concedida se houver –e somente se houver– o interesse mútuo. Mas a prática do Tinder vira um jogo que acaba assim que começa, porque perde a graça pra pelo menos um dos dois na partida.

O objetivo do jogo é garantir que a pessoa que alimenta seus interesses também lhe deseje em retorno, anunciar que quer, e aguardar. No entanto, é uma tática infrutífera: a conquista da vontade alheia recíproca anuncia o fim do jogo. Ganhei. Próximo! 

Jogar Tinder é como jogar PacMan, quase, no sentido de que você busca comer vitórias sem parar. Mas o coração verde piscando na tela, que deveria significar o início de uma troca, uma conversa, flerte, descoberta e, possivelmente, o encontro em pessoa, encerra tudo por ali. A partir do momento do match, a queda da importância é vertiginosa. A dose já foi injetada ao ego.

Ninguém quer conversar, e assim os diálogos morrem em vão, fáticos, largados nas primícias, um cemitério infindo de "oi tudo bens", onde o interesse rapidamente é encerrado, mas diferentemente de como ele começa, aqui não há anúncio do seu fim. Ninguém quer expressar com palavras o "não quero", apenas com a ausência delas. Eu só queria saber se você, esta pessoa que eu curti, me daria like também.

O pior é ficar ali, na sala branca, sozinho, retornando ao assunto abortado, tentando entender o que houve, o que causou a desconexão do outro do papo que fluía tranquilo, da troca cordial, que certeiramente se interrompe, recém-parida. Para os que sofrem de baixa autoestima, esse exercício é mais tóxico e danoso do que as regras do jogo costumam advertir.

Tinder é horrível. E, tal qual um jogo, é viciante. Deu match aqui? Ótimo. Tá pouco, mais um.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

terça-feira, 1 de setembro de 2020

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Pavlowando



Esse vídeo da Bianca DellaFancy é tão bacana porque não somente expõe e simplifica o fundamento da experiência de toda artista Drag Queen, eu suponho, que é essa transgressão de padrões e liberdade de ser. O que é mais rico neste sucinto desabafo é como ela sugere uma reflexão muito válida pra toda pessoa (e aqui vai além de qualquer letra do espectro LGBTQIA+) que padece de timidez:


Parece óbvio, mas é sim um questionamento pertinente. A gente é rápido em classificar timidez como traço de personalidade, mas, se olhar para trás, é possível ver que, em muitos casos, o comportamento tem origem condicional. No meu caso, me questiono quem veio primeiro: a privação ou a timidez. E se eu fui treinado a me esconder e retrair, como num experimento Pavloviano parental e coletivo, como então reverter seus efeitos? Como descartar os reflexos condicionados? A arte Drag subverte, porque a infração traz a permissão. Agora me resta encontrar a peruca que fuciona pra mim.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

dis-terapia

Quando dei à luz palavras –assim que brotavam as circustâncias–, eu não podia ver as rotas positivas que tracei ao riscá-las com 0s e 1s no papel simbólico desta tela. Fato é, na ocasião em que sentia o que escrevi, eu só podia ver o buraco – escrever é o que me permitia olhar pra cima e adiante. Mas hoje eu estou empacado e aqui, parece, quero ficar. Vejo minhas reflexões e as saídas saudáveis, e as rebato todas. Hoje eu não consigo!

Fui dormir com a cabeça fervilhando, pesada de repúdio, cheia de gritos emburrados. É um daqueles momentos em que a mente se recusa a aceitar que a vida sabe o que faz e aonde nos conduz. Tenho repetido isso nos últimos anos, vez e de novo, como mantra. Mas hoje não, não é desses dias. Hoje é de refutar o agora, e o que eu tenho, e onde estou e quem me tornei e o que alcancei e o que exerci, e o meu valor na história de outros. É tudo idiotice, e como eu posso, diabos, me amar, se estou preso neste lugar em que odeio ser quem eu não queria ser? Neste lugar em que eu tento compreender porquê a vida me trouxe acá, e não acho sentido. Outro alguém podia ter tomado meu lugar, nesse papel, dessa peça, desse teatro, outro fulano podia ter sido a ajuda e a influência e trazido riso e ouvido e ombro e palavras e afeto e zelo a todos esses com quem cruzei. Enquanto eu poderia estar onde eu gostaria de ter estado, fazendo o que de fato planejava ter feito, e as peças estariam ajustadamente acopladas. Mas agora que o mundo mudou, é logo este lugar que parece permanente, o cenário final.

Esta carta não era pra ser dessas de, no final, brilhar luz e fazer olhar para o alto, mostrar saída do buraco. Era mesmo pra ser um chilique, envolto no problema, aqui o meu escuro. Pois já não sei dizer ao certo, que me doem os olhos –sabe, é essa luz que aflige os bastonetes, e esse choro que salga as córneas–, mas, parece que talvez tenha falhado.


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

fisio: terapia

Foi cinco anos atrás, neste agosto, que comecei a me adaptar a uma relação mais positiva com o meu corpo, o que envolveria prática de exercícios físicos e melhor alimentação para uma figura mais encorpada e bem disposta, e ainda o exercício mental, para fortalecer o tal do amor próprio. Você lembra como foi, o início de tudo, tá aqui escrito e guardado. E tomei gosto pela coisa, cuidar de mim virou um hábito fundamental para a vida adulta pós-30. Mesmo que nunca tenha conseguido o corpo idealizado, porque o metabolismo insiste em correr em vez de caminhar, o bem-estar era inegável.

A clausura que a pandemia normalizou me desafiou a continuar os esforços por conta própria, em casa – e que não vacile a disciplina, por tudo que é sagrado! Mas não deu: os ânimos se definharam ao longo dos primeiros meses de isolamento, e o cuidado virou uma tarefa. Danoso quando vira um 'item a fazer', que aí a paixão já se foi, e sem paixão só restam os números contando suas repetições por você. De início, eu tive dificuldade para aceitar tudo que eu sentia: o não querer praticar, a insatisfação com os resultados da pouca frequência, e a dificuldade de retomar ritmo, força, habilidade, flexibilidade. Parecia ter abandonado o pobre do corpo à sua sorte, por momentos faltando o carinho para com o próprio. Me assustou um pouco, e me desmontou um monte.


Praticando alguns 20 minutos de yoga a cada sessão, tentava me convencer de continuar. Fazendo esta aula aqui, do Flo (por sinal, uma excelente prática), fui lembrado, um par de vezes, da importância de aceitar – a si, ao agora – o que é, como é. Há momentos no yoga, como a postura da criança, que servem para o reconforto, para o aconchego e equilíbrio. "Lembre-se que a prática se trata, de fato, da respiração, e estamos todos fazendo nosso melhor, nos movendo por entre estas posturas", diz o instrutor. "Abra mão de querer controlar qualquer coisa." Conceitos que eu já conhecia com intimidade, e às vezes preciso ouvir mais uma vez, como se fosse novidade. É difícil, em observar o corpo, reconhecer o tanto que perdi, mas também cabe à percepção própria mudar o foco e notar que aonde já se foi, pode-se novamente chegar. Ora, mesmo o além ainda é possível. O corpo lembra.

Quem não lembra é a cabeça – mas, às vezes, ela lembra. Hoje tem aí uns dois meses que não tenho praticado nada. Quero cultivar a vontade de volta, o genuíno; enquanto isso, cuido da cabeça, mexendo em pequenos hábitos. Sem me cobrar, de nenhuma frente. Escutando ao que eu sinto, aceitando, manejando. Que também é cuidado.

domingo, 2 de agosto de 2020

fisio _ terapia

Neste ano, como em poucos outros, passei o Dia das Mães longe da minha, enquanto quarentenava na casa do meu amigo André. Nossos laços se afrouxaram, ih, bem lá atrás, mas ainda há alguma relação, e certamente respeito e admiração. Sempre tem um abraço pra esse dia, que desta vez teve de ser virtual. Aqui em casa a gente vai mais afundo com as palavras escritas em vez de ditas. Ao receber minha homenagem pelo seu dia e labuta do grande papel de progenitora e mantenedora e apoiadora, minha mãe respondeu com carinho, e uma reação que eu não esperava, mas cujo esforço sempre perpassou nossa relação, alí, implícito. Ela me confessou:
Oi filho que lindo! Amei sua msg 😍 obg eu te amo e te respeito e queria ser uma mãe melhor, mas não sei. Mas amo vc do meu jeito.
E fiquei tocado quando, aqui, vi como temos em comum. Porque dias antes eu vinha pensando no mesmo anseio, de ser um 'eu' melhor. Que, às vezes, eu percebo que, com todo meu esforço de melhorar, de crescer e amadurecer e aprender com os erros e me aprimorar a uma versão elevada de mim, há horas em que eu pareço dar com a cara no muro num beco sem saída. Parece que bato ali e não tem mais pra onde mudar, e eu fico apenas segurando o desejo, como um membro fraturado, inválido. Parece. Por vezes, refletindo sobre essa inquietude e insucesso, reparo no quanto muito desse comportamente torto vem de berço, e como a gente se forma e aprende a ser. E sim, eu tento imaginar a vida da minha mãe pra trás, a infância e criação, os tempos outros, as coisas difíceis, meu avô era um escroto, minha avó era rígida porque precisava ser com os quinze filhos, e de certo também porque assim aprendeu com sua mãe antes dela, e assim voltam os ciclos mais atrás. No fundo, a gente faz o que pode com o que tem e com o que é.

Ao menos, a quarentena ensina a ser mais complacente. Mas, ainda há muito que mudar que está imobilizado com gesso, de camadas duras dos dias de outrora. Eu ainda quero poder romper o gesso em torno de certas condutas, e tocar a pele, mexer a carne, articular as estruturas. Quero acreditar que está, e não é, e que existe, sim, reparo.



sexta-feira, 31 de julho de 2020

[ COOLetânea ] Julho que tento

_
'Cabou julho, e eu cedi,
mirei alto, salto, e ruí,
bem abri o olho, e ouvi,
é a minha sina, o aqui?

Lá por dentro se perdeu,
desatento, no meu breu,
meu, eu julho que tento.


To be alone - Andrew Belle
Polly - Moses Sumney
Die Wild - Dia Frampton
In this shirt - The Irrepressibles
Take yourself home - Troye Sivan
Fear of the water - SYML
20 something - SZA
Comatose - Low Hum
Looking too closely - Fink
Like a bird - WILLOW
Loveless - Lo Moon
Violet City - Mansionair
Ayahuasca - Vancouver Sleep Clinic
Outside - TENDER


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