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terça-feira, 31 de março de 2026

jaded

 Março já se vai, após abrir uma tesoura gigante e cortar a fita inaugural do meu quadragésimo ano. Você me pergunta isso lá em 2008 (quando comecei a escrever isso aqui) e eu te responderia, na lata, que é a maior insanidade do mundo eu chegar aos 40 anos, sequer faz sentido. Mas por quê? Não sei.

E então, eu volto hoje, para marcar o marco de março, sob a fadiga colossal de tudo, do mundo lá fora, e do daqui de dentro. Agora, no banho, cheguei a uma conclusão que é mais, na verdade, uma hipótese com sabor conclusivo.

Nesses últimos anos, minha frequência de escrita caiu severamente, e fui levando na justificativa de que era a canseira da rotina o meu maior impedimento; pois desconfio que, com o tempo, dos anos prolíferos e dos de escassez, eu fui me cansando, meio que desistindo de me compreender. Assim, paulatino, sem perceber… Esse esforço incomensurável, essa tarefa infinda parece estar me vencendo. 

Neste ano, este espaço completa 18 anos. Veja só, tem pessoas no mundo com essa idade que nunca leram (tampouco escreveram) um blog, e eu aqui... Ainda tentando. Há pouca coisa que eu ainda espere alcançar, afinal, com todo esse tempo de imersão, ainda me sinto trocando ideia em idiomas distintos. Comigo mesmo.

Não sou ingrato. Não subtraio o valor do que eu somei com esse hábito, que, aliás, começou muito antes deste ou de blogs anteriores, mas lá no diário de papel, no meio da temporada dos meus doze anos.

É que estou cansado. O que era pra ser não foi, o que devia mudar permaneceu e, mesmo com tudo que conquistei, não consigo subir a pódio algum. I can't win. Até um vinil girando no mesmo lugar avança de faixa, e eu corro voltas ao longo do mundo mas vivo empacado.

Tudo acaba no dia que eu desistir, por fim, de mim. Que caiba ao universo domar o tempo e eleger a data, a hora, o ensejo. Até lá, eu vou e volto, levando no lombo e arrastando com os ombros pesada melancolia.


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

não conseguimos ser amigos.

 ...e, falando em Ariana, tava ouvindo o episódio do podcast Las Culturistas em que ela participa, e me peguei pensando muito em We can't be friends. É que no videoclipe, assim como no título do álbum, ela faz referência ao filme cult Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), do gênio Michel Gondry. Aliás, vale registrar que esse é o disco que eu mais ouvi este ano — que conseguiu, por vezes, me retirar do meio do mar do SOS.


Just wanna let this story die


Eu passei boa parte deste ano remoendo raiva; em contradição ao que declarei lá em abril, porque não foi fácil me desvencilhar do arrependimento. Neste caso em específico, de uma amizade em particular que, após muita insistência, por fim morreu. Mas não daquele jeito que a gente enterra, chorando, e guarda no peito as memórias boas do que se viveu. Não, essa morreu com raiva. Essa foi cremada, as cinzas lançadas à lata do lixo, para não deixar margem a dúvidas.

A trama de Eternal Sunshine... circunda a tentativa do esquecimento de alguém, o uso de uma tecnologia que limpa a mente das lembranças do outro, como se deletam os dados de um disco de memória. No filme, e no clipe, há titubeio diante do efeito do ato, sem volta. Será que prossigo? Como será viver daqui adiante sem que essa pessoa tenha existido na minha história? É um dilema delicioso de ponderar, principalmente porque, no fim das contas, não existe método que o faça na vida real, então nos resta mesmo lidar.

Eu já trouxe esse tema antes, lembra? Quando me revirava a alma, tentando superar um amor mal destruído, e eu achei que, sim, se me fosse oferecida a técnica, ali mesmo, sem hesitar, eu o apagaria da cabeça. Onze anos depois, e vejo que não. Não abriria mão do que aprendi com tudo aquilo. No entanto, hoje me pego aqui pensando o mesmo, que eu aceitaria destruir todo registro do tempo que gastei com esse amigo que nunca aprendeu a ser amigo. Sim, tempo que gastei, perdi, desperdicei com alguém tão oco e incapaz da reciprocidade de uma relação. Quisera esquecer cada momento, quisera o direito a reembolso de cada minuto, e dar-lhe melhor uso. Mas, sabemos, me resta apenas lidar.

Não, eu me recuso. Não aceito. Sim, eu me arrependo, mas não vou me alimentar de conjectura, que isso não dá sustento. Ainda que tenha jogado minhas pérolas ao porco, o que me importa é o que eu fiz, minha jornada e conduta, e não a do outro. Foi nesse exercício que eu me aprimorei como pessoa, como amigo, eu sim cresci, maturei, é nítido, e isso que conta, e disso me orgulho. Ademais, levo comigo um reforço:

 

 Onde não puderes amar, não te demores.

(Frida Kahlo)


Ponto final. Nova página.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

um grande tanto-faz

 Pensando aqui... neste modelo de vida estabelecidamente binário de bom e ruim, sim ou não, às vezes o que preenche mesmo é o alívio de repousar no meio do caminho, um receio atrevido e um julgamento inconsequente que decidem por tomar a terceira via e deixar os polos ali à vista, em igual distância, não servidos. E se permitir, mesmo que em impermanência, vislumbrar os extremos e suspirar um belo tanto-faz.


quinta-feira, 18 de abril de 2024

amálgama das coisas


"A gente ascende ao elevar os outros" [daqui]
 
 Fui encontrar o amigo Tiago ontem, a gente usou um código eficiente para sinalizar a necessidade de desopilar, e dali rendeu bastante conversa, relatos de eventos recentes, muito próximos em teor e resultados. Ambos nos removemos de nossos esforços perdidos em relações-cadáveres, e compartilhamos do mesmo alívio, caímos de pé e já nos pusemos a andar de novo, quiçá dar uns trotes, que a vida é curta. Foi maravilhoso perceber um no outro essa força e melhorias pessoais, uma armadura que se foi forjando, peça a peça, ao longo das quedas da vida e dos relacionamentos frustrados. No fim, surge a placidez no entendimento de que cada peça de percalço tem seu sentido e valor na engenharia da nossa construção como indivíduos. O processo em si é interrelacional, dependente dessas trocas e de seus fracassos para gerar acertos, e aqui não conto novidade alguma, eu sei. É que ver esses conceitos materializados na nossa trajetória foi demais reconfortante, nos fez enxergar o lugar a que chegamos, a escalada alta que trilhamos. Estamos amadurecendo, como esperado... nosso momento, aqui, chegamos! Tudo se deu apenas porque botamos o olhar focado em tornar as intercadências em pontos de ajuste e aprendizado, foi do nosso esforço pessoal e da nossa abertura à mudança que isso se fez palpável. Vou além: não bastou o impulso isolado, foi essencial compartilharmos nossos mapas e recursos nessa andança — e a companhia. É vital levar os seus contigo na subida, é ajudando o outro a ascender que você se eleva. Para crescer, é imprescindível crescer junto.

 Deusa me livre de amigos que me aceitem como eu sou sem ressalvas. Falham na atuação. Só me interessa manter laços com quem saiba apreciar o Joe de hoje, e ainda me instigar, apoiar e ajudar a moldar o Joe de amanhã. Companheiros de caminhada, parcerias rumo à plenitude.


Às vezes é melhor deixar as coisas serem como são,
deixar que as pessoas tomem seu curso.
Não lute por um encerramento justo,
não demande explicações,
não busque respostas
e não espere que entendam a intenção por trás de suas palavras.
Aos poucos, aprendo que se vive melhor
quando não se atribui à vida o que acontece ao seu redor,
em vez, quando se traz a seu centro o que acontece dentro de si.
foque no seu crescimento e paz interna.

[daqui]


segunda-feira, 15 de abril de 2024

superávit


Tudo que lhe cabe fazer é aprender sua lição.
De nada vale querer ter feito algo diferentemente.
O passado nele está; aceite o que é, e cresça com ele.


 Eu me lembro da primeira emoção reativa que eu costumava sentir, um tempo atrás, quando alguma relação se encerrava de forma frustrante ou traumática, era sempre um arrependimento sufocante, de ter me aberto para tal pessoa; a sensação de ter desperdiçado a minha intimidade, que sempre guardei com tanto cuidado, de ter me exposto e me doado para alguém que agora não merece acesso ao meu eu particular. Reagi assim por muitos anos, diante de inúmeras relações desfeitas.

A função de algumas pessoas em sua vida
é de testá-lo, até que você se levante e diga:

—Chega, basta! Meu valor é maior
do que sua oferta
.



 Aí lembro também de quando me apeguei a uma citação do autor James Baldwin (elevada por uma das minhas cantoras favoritas, India Arie), que diz que “ter o seu coração partido pela perda de uma relação é comparável a sofrer um luto, e que o amor é um caminho de crescimento, compartilhado”. Nos últimos dois anos, eu passei por alguns desses lutos, sofri cada um dos seus estágios, e então segui com a vida, vivo, e apegado às pessoas que ainda me importam, e que comigo caminham ao crescimento. A última dessas relações mortas, ainda fresca, doeu menos, porque esse óbito se deu por uma espécie de câncer que veio anunciando sua mazela mortal lá de trás, e me deu a antecendência de preparo. Superada e enterrada. Alívio!

Que tu possas atrair quem fala a tua língua,
para que não tenhas que passar uma vida
traduzindo a tua alma.


 Hoje, eu não penso mais em arrependimento. Tudo tem sua razão de se desdobrar diante de nossas histórias. Eu prefiro guardar numa gaveta os momentos bons divididos, e deixar qualquer rancor correr para longe, como água por baixo da ponte. Eu não mais desejo o mal, eu luto para perdoar, mesmo no silêncio do outro, e reconheço cada emoção que me passa até superar a perda, porque foi o vínculo quem morreu, eu sigo aqui, com as pessoas cujo papel na minha narrativa não expira.

Você vai construir memórias com outras pessoas.
Pessoas melhores.


imagens daqui.

 

galhos quebrados


Fui quebrado, então cresci diferente. [daqui]

 
 
 Tenho encontrado O algoritmo tem jogado na minha tela muitas postagens como essa, ilustrações de frases e ideias fincadas em temas de autocrescimento. São imagens que ajudam a reafirmar e reforçar diretrizes pro guiar dos dias.
 
 Esse acima traz a representação de um galho quebrado que, diante da adversidade, persistiu em existir, "então eu cresci de outro jeito, em outra forma, por adaptação, a circunstância não me impediu de crescer". Vejo ainda outra intrepretação próxima para "so I grew different". Tendo que o galho quebrado simboliza os traumas do passado e como eles nos moldam, também vejo possível entender como "eu cresci diferente, uma pessoa distinta de quem eu era, e distinta dos outros".

 Eu já consigo perceber alguns frutos, da colheita que o ano da Justiça me prometia. É fascinante sentir mudanças se concretizando dentro de mim. E não é o caso de dizer "foi o tarô", como se fosse bruxaria. Eu batalhei pra chegar aqui, são resultados de um esforço deliberado. Tudo isso é meu, por direito.

 Manter relacionamentos é mesmo um trabalho árduo, somos, cada um, o seu próprio galho, tentando servir de suporte, sombra e companhia uns aos outros. Mas as pessoas são quebradas à sua maneira, e crescem diferentes, diferentemente. Uma libertação é a sabedoria de entender quando um desses galhos próximos não se adequa mais ao seu, reconhecer quando eles se tornam ervas daninhas, danosas ao seu crescimento; mais do que a compreensão, a ação de podar o seu espaço e se livrar delas.

 Quem é responsável pelo seu crescimento é você.

Regue aquilo que te rega. [daqui]


sexta-feira, 15 de março de 2024

▷ ≋ O

eu, 1989

 Eu me lembro de quando percebi que duas pessoas da minha trindade começaram se fundir. Explico.

Ao passo que comecei a escrever por aqui, 15 anos atrás, fui me entendendo como fragmentado em 3 eus: o Wando, eu natural, nascido, registrado e resultante de um período formativo marcado por vários traumas; o Joe, eu reconhecido dentro da minha cabeça, ali pela adolescência, como subterfúgio, como escape e sobrevivência, o eu ativamente real no mundo; por fim, o Benin, eu projetado, aquele que eu idealizava e sonhava em me tornar, minha versão mais evoluída e madura. 

Retomando, um tempo atrás comentei que, avançando no longo processo de autoperceção, Wando e Joe me pareciam cada vez mais mesclados, como se o eu do agora, que mais se entende como eu, estivesse finalmente trazendo pelas mãos o eu fragilizado do passado rumo à luz, assim formando uma dupla, mais fortes para as lutas da vida.

eu, 2018

 E hoje, o que vejo é que esse par conseguiu encontrar o eu lá da frente, aonde queria chegar. O Benin, a quem escrevo estas cartas, a pessoa que me escuta quando eu as leio de volta, está cada vez mais aqui, comigo, factual. O aprimoramento por que eu ansiava, ele já existe, os três eus enfim se unem numa liga completa, possante. O triângulo se abre em linhas curvas e forma um círculo, uma pessoa redonda, em formação mais orgânica, em evolução mais constante. É maravilhoso olhar pra trás e ver tudo que eu virei.

 É especial que essa reflexão se faça clara hoje, no meu aniversário, agora 37 anos completados, em que inicio o meu ano da Justiça, segundo as cartas do tarô. Este é um novo tempo de receber o que é meu por direito, colher frutos do que trabalhei - fora e dentro de mim - para conquistar, tudo aquilo que é de importância para mim. Hoje também faz 10 anos que voltei de Sydney. Tempo, ele dá mesmo conta das coisas. Qual é o melhor exercício do aniversário de vida, senão esse de fazer uma sinopse reversa e se maravilhar diante do que se viveu, chorou, sorriu, aprendeu? Melhor do que isso, só compartilhar dessa alegria com quem a gente ama e quer ver a gente alcançar a plenitude.

eu, 2023

 Eu nadei muito pra chegar até aqui. Parabéns, Joe Wando Benin!

quinta-feira, 14 de março de 2024

sobre controle: sob controle

 O ano era 2011, eu havia recém chegado a Gold Coast e descobria os arredores, tudo com ar de novidade. Após uma dessas andanças, e reparando o ritmo provinciano que a cidade levava, postei aqui um texto comentando como, até então, a parcela de homens gays que havia avistado era composta inteiramente por homens afeminados, e reportei a notícia com um descontentamento expresso - uma repulsa, até. A maior parte das pessoas que leram o post não viu grandes problemas, mas um leitor assíduo da época deixou um comentário que, embora ríspido, pretendia me escolar sobre o assunto. Discutimos calorosamente pela caixa de comentários, até que deletei o texto, não gosto de conflito.

O fato é que, em 2011, não vivíamos a cultura da lacração; ou melhor dizendo, não tínhamos, enquanto sociedade, o nível de esclarecimento e evolução do respeito às microminorias que temos hoje. Já nesta década, um texto como aquele não seria aceitável, tampouco eu o escreveria, pois com o avanço do pensamento comum, o meu também escalou - ainda bem! A gente é mais ignorante quando, diante da informação, a recusa. 


Corta para 13 de março de 2024: em cena, minha psicóloga, atenta, me ouve desdobrar eventos de infância e como tenho concluído, que, a partir deles, construí minha resistência e aversão a dividir minha intimidade com outros. Ela me rebate com: "O que é intimidade para você?". E eu ilustro, é o que sinto quando estou com meus amigos e tenho liberdade para falar e agir como realmente me importa. Diante disso, percebo que, sob a influência de um grupo de amigos, aprendi a abraçar meus traços de feminilidade que, em meus anos formativos, fui condicionado a reprimir como fossem uma praga. Da convivência veio a naturalização e, logo, a aceitação. Hoje eu adoro quando, na companhia certa, me sinto à vontade para dar pinta, dar close, desmunhecar, falar manso com voz fina e afetada, ou ser referido com palavras femininas - querida, mulher, gata, amiga, linda - e com termos que não mais tomo como insultos, mas sim íntimos - gay, viado, puta, bicha bichérrima.


Eu pediria, e peço, desculpas ao leitor que me alertou, lá atrás - e a quais outros tenham se ofendido -, sobre meu comportamento tóxico, embebido de um preconceito aprendido. Mais relevante que o erro é o acerto a que cheguei, a visão clara de que a vida é mais leve quando a gente não se deixa prender a amarras vãs, e apenas larga mão do controle, passa o volante e a direção das coisas para o autopiloto da vida, e do mais ela se encarrega; apenas confia e vai.


Em pouco mais de uma hora se encerrará o meu ano do arcano Carro, que posso atestar, foi de percurso árduo, de pedágios, acidentes e desvios de rotas, mas com orgulho posso, hoje, ver aonde eu cheguei, e reconheço que a viagem valeu a pena - pelo destino e pelo trajeto, contente e ciente de que muito aprendi no caminho.

 


sexta-feira, 1 de março de 2024

sol e MARço

Fevereiro veio, entregou o carnaval, e passou o bastão adiante. Cumprido o dia bônus deste ano bissexto, entramos em março, e eu estou muito animado! Quinze dias de férias me aguardam e me guardam grandes experiências. E ali no meio-ponto do mês tem o meu aniversário, que também marca o encerramento do meu ano do Carro, e o início do meu ano da Justiça, já diziam as cartas. Contrariamente ao ano passado, neste ano eu estou puramente feliz que março chegou.

Pensando no costume social que temos de imputar valor às coisas, principalmente àquelas que revolvem ao tempo, ontem copiei uma ideia bacana que vi no Instagram: uma cápsula do tempo pessoal, uma carta falada para o eu que me encontrará daqui a 4 anos, no próximo fim de fevereiro estendido. Tá tudo gravado, nem precisei enterrar, que a internet já se encarrega disso por mim - haja conteúdo!

 


Voltamos a apresentar.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

"baby, dive in, 'cause the water feels nice"

 

Certeiro como a lua leva e traz o oceano, também eu vou e volto, à frente e atrás, em ondas. Minhas águas podem secar com o tempo, mas da sua nascente brotam outra vez, numa maré feraz e efervescente.

Há alguns meses venho nadando numa transição mental que agora se materializa visualmente, aqui no digital. Há meses, ouvindo um mar se revelar, e cada onda sua se desfazer à margem; nos olhos cerrados, a brisa compõe uma canção inaudível com o tocar dos cílios, como uma harpa, e dos cabelos longos, pesados de sal e suor, permeados de maresia, a pele, cobreada de sol, reflete o arredor, tanto azul, parece não ter fim de azul!

Das cavernas internas ascendi à leveza nas nuvens do céu. Era de se esperar que eu chegasse até aqui. Peixe que sou, filho da água, banhado e resguardado em sua custódia. Ora, nasci com o Sol na casa de Peixes, pois que hora oportuna para mergulhar nesta mudança.

 

Pouco é comparável à beleza do tango marítimo, onda que dança contra onda, o vento que sugere ritmo, a lua que rege sua orquestra, a espuma que vibra e aplaude. Ainda assim, tanto se assemelha ao desenrolar da vida, que flui numa direção e nós, noutra; cuja sina nos vem de encontro e nos derruba do eixo, nos revolve sob fardo pesado, nos rouba o ar e nos capota num balé de cambalhotas, mas nunca nos afoga. Não, não há ano que seja bom ou ruim, o tempo não se ocupa com essas coisas. Há, sim, mar alto, de afago e de fúria. Ora estamos em costa, ora em alto-mar.

Sim, estou mesmo em evolução. Com cada caldo que o mar da vida me dá, alcanço mergulhos mais fundos adentro de mim, e quando encontro descanso, eu emerjo, respiro, me recomponho, contemplo o azul que me abrange e nado uma vez mais, surfando por entre a contracorrente.

 


 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

quinze, ondeante

Num dia de junho, de férias na minha querida Natal, fui me deitar ao sol e banhar a pele de luz e calor nas areias da praia de Ponta Negra, não colado ao pé do Morro do Careca, como de costume - dessa vez, mais avante, para lá da muvuca praieira.

Às tantas, sentei meu coco gelado na mesa, nós dois gotejando suor; enfiei meus pertences na bolsa e, quando fiz que ia guardar meus óculos de sol, hesitei e tornei a cobrir os olhos, protegendo do cobre solar de fim de tarde. De sunga e com as lentes na cara, rumei àquele imenso corpo de água inquieto, atrás de conforto.

Bastou meia-dúzia de ondas me vir de encontro, que uma braçada d'água me nocauteou e, quando me recompus, meus óculos já não mais me guardavam as vistas. É, o mar é um bicho impiedoso, não houve negociação: por mais que eu apalpasse seu fundo arenoso com lances de polvo, ele não devolveria meu acessório - e ainda eram óculos de grau, mas o mar com isso pouco se importa.

A plenitude que antecede a perda.

 

Eu sabia que arriscava perdê-los, vislumbrei o sucesso e a falha no meu breve titubeio, e assim mesmo encarei o oceano. Ali, diante do extravio, mirei no balançar bravio da água, e constatei que o que é, é. Senti muito, mergulhei, deixei que uma onda - irmã daquela - me engolisse por um instante, e com ela o mar lavou tudo: o instante, a esperança, a barganha, a perda.

Saltei afora da sua espuma e vi que o mar me abraçava, o sol me acalentava, a água me refrescava, o sal me amparava, a areia me sustentava, e as ondas me chacoalhavam a toda direção, trazendo mudança, ímpeto, estâmina, movimento. Evolução. Logo eu, sempre tão relutante em abrir a mão e largar? Ora, e quem é capaz de segurar o mar? Deixa a onda levar!

E assim como viver, se nos é forçado a mudar o olhar, tão rápido ele se adapta a ver que o que é, é. Posso encarar o mar sem medo de perder ou falhar, porque, no fim, o mar não me tiram.

E hoje já faz quinze anos que escrevo aqui, e conto de ondas que atravessei, mares que mergulhei; tombos, respiros e regozijo. Eita, quantas águas já rolaram! Por vezes eu nado, por outras eu nada.


Mas, do mar ninguém me tira.

Ano 1 . Ano 2 . Ano 3 〰

〰️ Ano 9 . Ano 10 . Ano 11 . Ano 12 . Ano 13 . Ano 14

   

Feliz 15 anos! 🌊


quarta-feira, 15 de março de 2023

blind

  

(Risos) Lembra como era enxergar as coisas mais claras, os olhos semicerrados ao brilho do lado positivo que em tudo há? Como era ver a energia do universo fluir entre nós, como ondas.

Olha, se ano passado as trapaças psicológicas que rodeiam o meu quinze de março não me pegaram, neste ano não teve jeito. Equilíbrio é tudo. 

Eu tô num mar ermo, cercado de um corpo pesado de águas de março, torcendo por uma boia e um bote. Zonzo das ideias, incapaz de enxergar o horizonte ou direção ou sentido. Não sei ainda o porquê, tô processando, e a terapia é só na sexta.

A SZA tem sido, nos últimos anos, a artista que mais fala por mim, e o recém-lançado S.O.S. me caiu como salva-vidas. Escuto num loop maior que a volta da terra. Dentre as tantas faixas, relacionáveis demais, tem essa aqui, Blind. Diz algo assim: 

[ Refrão ]

É tão vergonhoso,

tudo aquilo que eu preciso

está dentro de mim,

e eu não consigo ver,


é tão embaraçoso,

todo o amor que eu procuro

vive dentro de mim,

eu não enxergo, estou cego.

Essa música me abraçou e me engoliu como um oceano impiedoso.



Happy birthday, Joey! Feliz trigésimo sétimo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

14 (catorpe)

 

Eu pouco sabia ou podia conjecturar os rumos que traçaria, por mais que os tentasse planejar, lá em oito do oito de dois mil e oito, quando saltei de outro endereço virtual para este aqui, propondo uma nova forma de participar da moda da época –o blog–, que me servisse um propósito pessoal, e não só o de uma das primeiras redes sociais (que aliás, difícil era prever que essas tomariam tamanha proporção e oferta diversa). No fundo, havia um jovem muito confuso que só queria se entender e não parou de tentar. Catorze anos se vão, e ainda tento.

Eu tenho feito tanto esforço pra estreitar esse laço com o eu mesmo, mais do que nunca eu tenho tentado, mas com o voar do tempo e a quilometragem cansada e a distância faltante, eu vejo que temo o que vou aos poucos descobrindo. Não tenho certeza se vale a pena esse mergulho afundo adentro, não sei se ainda me resta apreço por explorar essa caverna: no escuro, na profundeza, quanto bicho se esconde!

Eu tô por aqui, eu vou estar sempre por aqui, e você comigo, eu e você. E no cruzar dos anos, escrevi tantas palavras cheias, belas linhas:

 

 

Mas agora, não há o que me importa dizer; nada importa.
Agora, eu não quero falar.

Feliz Aniversário, Dear Benin.

terça-feira, 28 de junho de 2022

uma casa nem sempre é um lar

Ao longo dos últimos dias, eu precisei debater sobre isso mais uma vez, refletir sobre minha relação com famílias, minha e dos outros. Tenho uma inadequação muito inata à dinâmica familiar de forma geral. Pra mim, a única forma de família que funciona é aquela que eu mesmo agrupo de própria vontade.

E, às vezes, dentro dos ciclos conquistados também há desligamentos, sinais de desencontro que teimam em emergir por detrás da certeza do pacto de amizade, parentesco prometido por mútuo contrato. Mas família, de sangue ou preferência, só se sustenta com amor sincero.
 
 
Prova de maturidade, saber reconhecer os fins e deixar pessoas para trás, porque certamente não é caminho fácil. Já diz Harry Styles na faixa Matilda:
...eles não mais poderão te magoar, desde que possa deixá-los ir.

 



domingo, 22 de maio de 2022

this was my Heartstopper 🍂

 
Já se foi um mês desde que a Netflix estreou a série Heartstopper, e nessas quatro semanas eu revisitei muitos aspectos da minha vida, e chorei e sorri com o coração aquecido e em ebulição. Na obsessão com que essa história me arrebatou, é inevitável pensar no impacto que teria causado na minha formação se a série ou os quadrinhos estivessem disponíveis na minha adolescência.

Estava refletindo sobre minhas óbvias semelhanças com o Charlie, especialmente sobre a forma como ele se sujeitou a uma relação tão nociva e de pouco proveito com o Ben. Alguém que o trata como lhe convém, sem respeito ou consideração pela pessoa do outro, soa familiar.

Nesses dias voltou à terapia o tema do meu ciclo vicioso de rejeição, e olhando pra história do Charlie, me pergunto: se o Nick não tivesse aparecido naquele primeiro dia de aula, como teria sido o ano do Charlie, e por quanto tempo ele teria prolongado os encontros escondidos e aceitado o Ben lhe tratar tal qual lixo? Em certo momento, dentro da sua fragilidade, ele entende que não dá mais e manda por mensagem um "não quero mais te ver". Se ele teria cumprido essa resolução ou não, não me cabe adivinhar. Me importa o que eu faria, e faço e tenho feito. 

O Charlie logo conseguiu abrir os dedos e largar sua ideia feita do Ben, e o garoto real a que ela não correspondia, deu meia volta e deixou o veneno escorrer para trás, aonde o passado pertence, tudo isso porque à sua frente pairava uma oferta melhor, alguém acolhedor, carinhoso, que lhe queria bem - ainda que na incerteza de que o Nick seria um interesse romântico ou apenas amizade. Diante de alguém que nos abraça, não restam razões inconscientes para nos mantermos presos sob o feitiço de quem nos macula com espinhos.
 
 
"Heartstopper", by Alice Oseman, Netflix 2022

Minha psicóloga me questionou qual foi minha reação quando o Charlie, ao final da temporada, é provocado pelo Ben, e novamente se desliga da situação, sem enlace ou fraqueza. Eu respondi que senti orgulho, o mesmo orgulho que eu, quando escrevi o Benin pro meu filme, buscava sentir por mim mesmo, ainda que por vias de projeção no personagem (como faço há anos aqui neste blog). E hoje eu larguei pra trás quem me fazia mal, de novo, a muito custo e com nenhuma resposta às minhas perguntas, senão o silêncio e um "desculpa", disparado assim meio sem alvo. Ainda me enrosquei em muitas teias de questionamentos, mas pareço sair dessa, é promissor. 

Nunca tive, como o Charlie, a chance de me envolver com alguém bom para esquecer alguém ruim, e esse é um dos motivos por que demoro tanto a deixar pra trás. E sim, estou somente agora, aos 35, realizando que ainda desejo um Nick, mas se - ou enquanto - não me aparece, quem tem que ser uma pessoa doce e ajudar a quebrar minhas algemas sou eu mesmo.

"Heartstopper", by Alice Oseman, Netflix 2022


domingo, 3 de abril de 2022

Não estou disposto.

 

"Saudade."




A gente não deve nada um ao outro, senão respeito como pessoa, respeito pelo que já trocou. Pois acho justo que entenda como me sinto. No diálogo que só se manifesta sob o teu domínio, minha voz é muda, e meu tom, obediente. Isso me assentou estranho nas entranhas.

Eu tento, e falho, montar tua defesa, mas não há caso, nem causa; tua falta é a falta. E não o teu autismo, que eu salvei no teu dossiê como acordo, redução de pena. Ainda que fosse, teu dever seria tentar mais.

Eu mereço cuidado, afeto, proteção, consideração; que me encerrem os finais com os devidos nós e não larguem as pontas soltas e esfiapadas; que me contem e digam e me dêem vez de fala e ouvidos; que acolham minha oferta e, de bom grado, meu agrado generoso; que sorriam para mim e comigo e, com sua risada, suscitem a minha.

Mas não é o teu caso, e sim tua falta. Falta o respeito, esse que te estendi e não tive em retorno. Eu gosto de quando estamos juntos, e minha falta é a que faz o cheiro da tua pele e o teu tato na minha: sinto falta, além da tua Saudade, assim, solta numa frase de uma só palavra.

Venho há meses com essa náusea, e hoje esperei, outra vez em vão, pela tua retratação, a tua voz e a risada, o teu cheiro e o abraço. Bom para passar enjoo é regurgitar o que faz mal por dentro. Eu sinto tua falta, mas sinto ainda mais a dor da tua falha. Então, melhor remediar e cortar tua dose por aqui, que não tenho interesse que me tratem assim.


 

 

 

 Fotos: Aaron Taylor-Johnson para a revista Hero

sábado, 2 de abril de 2022

O presente é um presente


Esses dias, narrei o Drama das Bursas no episódio 3 do hey, Benin e como minha saúde mental anda afetada pela falta de atividade física. Levei o tópico pra terapia e compartilhei com quem mais me perguntasse "como você tá?". A dica da psicóloga, pra sair do buraco em que me via enterrado, foi botar a meta do exercício no lugar de necessidade, tal qual trabalhar. Fui tentando e nesta semana consegui, em duas manhãs, acordar mais cedo e fazer uma sequência breve de movimentos, me esticar - como fazia falta! Com a energia já outra, fui praticar yoga no parque hoje cedo, com minha instrutora, amiga e inspiradora, Mariana Melo.

Mais do que a prática de asanas e a vista do povo bonito caminhando pelo parque, eu precisava de um segundo de meditação a céu aberto. A Mari fez um momento guiado em que nos pediu que repetisse um pequeno mantra, e acertou em cheio a demanda que eu trouxera comigo para aquele gramado. Ele começa com seu nome, e segue assim:


Joe,

iluminado,

por favor, me perdoe,

sinto muito,

eu te amo,

eu te cuido, te protejo,

eu sou grato.


E então, chamou a pensar em todas as vezes em que a gente é ríspido consigo mesmo, injusto, desrespeitoso. Ao final da aula, comentei que estava há dois meses sem fazer nada por conta dos ombros, e o quanto isso me havia desgastado, e ela continuou: "não é justo dizer que você não fez nada. Você viveu, trabalhou, conversou, sorriu, chorou, comeu, dormiu; você faz tudo que é capaz de fazer agora. E também não se trata do que a gente viveu, ou viverá, mas sim do que a gente vive, agora." E aí lembrei que, ontem, a Fernanda me mostrou um livro novo, Diário Estoico, que traz uma lição de vida para cada dia do ano, e quando eu abri no dia do meu aniversário, me veio esta mensagem:

Tá ligado.



terça-feira, 15 de março de 2022

O Sábio no Inferno

 

Dois mil e vinte dois quase me enganou com as trapaças psicológicas que rodeiam o meu quinze de março. Resquícios de não querer abraçar meu aniversário pareciam voltar a me acometer – logo agora que a pandemia começa a dar sinais de esfumaçar para longe das nossas vidas normais. Eu já não entendia de onde brotava a angústia desta vez. E às vezes nem é preciso ir atrás, o próprio entender vem ao seu encontro.

Tudo está conectado. E, neste ano, em vez de soltar verborreias escritas que me iluminem, recorri à minha nova terapia, que é falar diretamente com você – comigo. Pra te/me convencer de que tá tudo bem, e do quão felizes foram os trinta e cinco. Pois, saúde aos trinta e seis!

 



terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

light

Da treva, parti rumo à luz. Eu precisei navegar no escuro pra aprender a paciência de aceitar o plano da vida se definir, que os meus planos eram apenas meus, e os do universo nada lhe deviam; esses se cruzam se assim for de ser.

Declarei que precisava olhar para dentro e buscar a luz – não no fim do túnel, mas no princípio de tudo – e as palavras se puseram a valer mais que mera prosa. Eu tinha mesmo que me escutar, me sentir, me degustar, responder aos meus anseios, me entrosar naquela interseção pessoal que eu bem sei conversar. 

Na terra do Sol, eu trupiquei nas sombras do canto escuro. E então me levantei, circundei tateando as paredes de areia e sal, os pés tortos se endireitaram, e o feixe de luz raiou, cegante. 


A plenitude é o agora que a gente busca, incessante – e ela reside em treva e luz. Do inglês, light traduz-se como:

luz - o que, iluminando, torna as coisas visíveis; energia luminosa; claridade; fulgor; o que ilumina o espírito;

leve - que tem pouco peso; ágil; de fácil digestão; não opresso.

 




~~~

Dez anos exatos voaram desde aqueles primeiros raios de sol cortando o céu alternado de edifícios do centro de Sydney, na manhã gloriosa da minha estreia na cidade... Dez anos daquela energia que me iluminou os passos e o espírito.

 

E hoje, dez anos adiante, passados breu e caos, angústia e inquietude, eu girei a chave em 180º, e fez-se a luz. Eu vejo o que é bom pelas entrâncias e ranhuras do que é ruim. Eu aceito com ternura e sorrio ao sucesso e fracasso. Na Revelação, me desenvolvi à minha imagem.

Celebrando datas, ciclos e luzes, hoje inicio um novo projeto: do blog, nasce um podcast; da caixa de cartas, surge um gravador de voz – uma real extensão do que eu há tempos faço por aqui, manifesto as ideias, escuto, reflito, evoluo. Hey, Benin!



hey, Benin Podcast, disponível nas plataformas digitais.


Sê luz. Sê leve.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Tô ótimo, e você?!

Nestes dias derradeiros de 2021, tenho visto tanta gente condenando o ano como horrível, e eu daqui posso pontuar tanta coisa boa... Não encerro com essa impressão, não. Certo, esses últimos anos foram mesmo pesados, mas neste creio que voltei a encontrar um pouco do chão onde pisar. Termino muito grato. Tô bem.
 
Venha, amanhã, traga tuas novas.

 Que eu quero é luz.


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